Entrevista: Júlio Cézar Busato - Presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) fala com exclusividade ao leitores do site Mundial FM.
27/01/2020 09:54 em Agronegócio

 A Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) estará realizando no início de fevereiro o 1° Curso Avançado em Tecnologia de Aplicação Agrícola. Para falar mais sobre esse curso e também sobre a safra de algodão e sobre os projetos da Abapa, vamos conversar com o presidente da entidade, o produtor rural Júlio Cézar Busato.

 

 1. Como foi a construção deste curso, qual o objetivo e quem poderá se inscrever?

 

Júlio: O curso é resultado de uma parceria da Abapa com Agrosul, Embrapa, Fundação Bahia e UPL. Os instrutores são especialistas na área de aplicação de defensivos, pois, a tecnologia está avançando de forma rápida e nós devemos estar sempre atentos e preparados, para podermos trazer melhorias na forma de aplicação, tendo ação mais assertiva e eficaz, com objetivo de diminuir os custos de uso de defensivos. Será realizado em duas etapas, sendo a primeira nos dias 3 e 4 e a segunda 6 e 7 de fevereiro.

 

2. Em relação à aplicação de defensivos  agrícolas, existe muita desinformação e receios das pessoas que isso vá contaminar o meio ambiente, o que não é verdade. Explica como funciona e qual a importância do uso destes defensivos na agricultura, principalmente no algodão. 

 

Júlio: Nosso clima tropical é propício para a proliferação de pragas e doenças, isso torna impossível produzir sem uso de defensivo, claro que se fosse escolha dos produtores todos preferem não usar, pois, o custo é altíssimo, aplicamos só em casos de extrema necessidade.

 

Quando tratamos os defensivos como “Veneno”, temos que lembrar que a diferença entre Veneno e Remédio é a dose utilizada, se for usado em excesso tudo vira veneno, então nós orientamos que deve ser aplicada as dose indicada e respeitados os prazos de carências, para que se tenha um alimento saudável na mesa do consumidor.

 

Em respeito à saúde da população tivemos após a década de 70 um aumento na expectativa de vida do brasileiro de 53 pra 73 anos, justamente a partir da “Revolução Verde”, dando início ao uso de fertilizantes, calcários e defensivos. Somos o 6º país no mundo em relação ao uso defensivo x aera cultivada (hectares) e comparando com o Japão que utiliza 8 vezes mais que aqui, lá população tem uma expectativa de vida de 87 anos, deixando uma pergunta – Será que o problemas é o uso dos defensivos?. Precisamos deixar de acreditar em celebridades que na base ao “achismo” saem pregando um monte de inverdades para aparecer e criando dificuldade para quem está produzindo.

3. Falando agora de safra, a Bahia é o segundo maior produtor de algodão do Brasil. Depois da ultima safra, o estado continua nessa posição?

 Júlio: Continuamos como segundo e devemos permanecer por muito tempo, pelo fato de 2012 a 2015, ter diminuído a área de cultivo passando de 400 pra 200 mil hectares, hoje já estamos recuperando e alcançamos 330 mil, perdemos tempo, pois o Mato Grosso que na época plantava 700 mil hoje planta 1.100 mil hectares, da mesma forma que eles nos superam no plantio da soja.

 

Porém, em matéria de produtividade não irrigada estamos dividindo com os Australianos e sendo um dos maiores do mundo. Considerando à área total cultivada perdemos para os Australianos, enquanto nós irrigamos 8% da plantação eles irrigam 100%.

 

Nossa vantagem de ter um clima da região onde as estações de chuvas estão bem definidas, possibilitando a qualidade de o nosso algodão brigar novamente com o algodão Australiano. Lembrando que eles não sofrem com a interferência das chuvas.

 

Precisamos o mais breve voltar para os 400 mil hectares de cultivo e logo em meio milhão, pois, apesar de ser uma cultura extremamente exigente, que necessita de muita tecnologia e com custo altíssimo, mesmo assim, comparada com a soja ela dá um resultado 3 vezes maior e emprega 5 vezes mais pessoas. O resultado da safra passada o Algodão contribuiu com 4,5 bilhões de reais para o PIB da Bahia com uma área de 330 mil hectares.

 

Este resultado que muitas vezes as pessoas entendem que ficou com o produtor não é verdade, quando você chega às fazendas percebe o grande número de pessoas empregadas e também beneficiadas por este resultado, gerando riquezas nas cidades da região. Com isso chegam novas lojas, indústrias e crescem os investimentos imobiliários. Se comparamos nossas cidades da região com outras até próximas fica evidente um grande desenvolvimento e oportunidade de negócios trazidos pelo agronegócio.

 

4. Como o setor do algodão contribui com emprego e renda para a população. A Abapa possui um centro de treinamento, aqui em Luís Eduardo Magalhães, para qualificar esses profissionais para conseguir empregos no setor agrícola. Fale um pouco deste trabalho.

 

Júlio: Dos 5 pilares da ABAPA, está me primeiro lugar acabar com o bicudo, o arqui-inimigo, sendo o segundo o centro de treinamento – CT. Quero parabenizar a Diretoria da Abapa que no ano passado duplicamos a estrutura do CT, não esquecendo das diretorias anteriores que enxergaram a necessidade de qualificação, haja vista, usarmos as melhores máquinas e as mais avançadas tecnologias do mundo, nos igualando as americanos e australianos em equipamentos, porém, precisávamos de pessoas treinadas e qualificadas para operarem no campo. Começou de forma tímida com 300 passando para 500 pessoas treinadas e no ano passado chegamos a marca de mais de 15 mil capacitados e qualificados, pra se ter uma ideia as máquinas hoje só falam em inglês e o trabalhador em sua maioria não sabe nem escrever, mas, com as qualificações e treinamentos eles conseguem identificar os problemas e soluções nos equipamentos. Este operando qualificado para utilizar as máquinas tem ganhando um salário muito acima da média da cidade.

 

Hoje nossos colaboradores são nosso maior patrimônio, eles foram preparados e merecem o lugar de estima que alcançaram, pois é mérito deles. Nós produtores precisamos preservar estas pessoas e o CT tem desenvolvido cursos a segurança no trabalho em parceria com SESI, SENAI e SEBRAE, com várias entidades para proteção do nosso bem maior que são os funcionários.

 

Este trabalho de qualificação e treinamentos tem oportunizado muitos empregos e dessa forma gerando assim uma distribuição de renda para toda população do Oeste da Bahia.

 

5. Existe um trabalho para aumentar a área irrigada em nossa região, como esta sendo feito isso?

 

Júlio: Este projeto é de Iniciativa a AIBA e a Abapa, fundação Ba, Faeb sindicatos de Barreiras e LEM vem apoiando, um sistema de monitoramento das águas superficiais e subterrâneas do aquífero Urucuia, existe um enorme potencial de irrigação em nossa região, mas não sabemos quantificar, então precisamos instalar um sistema que nos informe como podemos utilizar com mais inteligência.

 

Hoje temos um monte ideologistas e falastrões na base do achismo, dizendo que nossos netos vão ficar sem água, desmontando a inteira falta de conhecimento, pois, a legislação já prevê que em estado de risco é suspensa a irrigação e nenhum produtor seria irresponsável ao ponto de cometer isso, mas, o que acontece hoje está correto? Deixar a água passar por baixo de ponte e desembocar no mar, sem ter sido aproveitada em benefícios da sociedade é inteligente ou representa um desperdicio?

 

Então reunimos a Embrapa, Universidade de Viçosa, Uneb, CTRN, ANA, INEMA, Secretarias de Agricultura e Meio Ambiente e recursos hídricos da Bahia, visitamos Nebraska nos EUA e trouxemos a Universidade de Nebraska e o Instituto Water, contamos com mais de 50 pesquisadores trabalhando para criar este sistema de uso mais inteligente e sustentável. Eliminando a ideia que nossos netos irão morrer de sede.

 

Nebraska possui um sistema de monitoramento com mais de 100 anos, em uma área de 20 milhões de hectares, comparando conosco que temos 17 milhões na região Oeste, recebem precipitação de chuvas 630 mm/ano nós com quase o dobro, na faixa de 1.100 a 1.200 mm/ano, possuem 100 mil poçose atendem 3,8 milhões de hectares enquanto aqui irrigamos 190 mil hectares, o PIB agrícola lá gera 25 bilhões de dólares e nós ejetamos 500 milhões.

 

Concluindo, eles são muito inteligentes ou nós ainda não estamos sabendo utilizar nosso potencial.

 

 6. Em relação à qualidade,  existe uma boa aceitação do mercado nacional e Internacional em relação ao algodão da Bahia? Como é monitorada a qualidade?

 

Júlio: Abapa tem um laboratório em Luís Eduardo Magalhães que é o maior da América latina, que em 2019 analisou 3 milhões de amostras de algodão. A Associação precisa que o resultado das analises apresentem fielmente a qualidade da fibra que será recebida no fardo do algodão, independente de ser no mercado interno ou na Ásia.

 

Preocupada com isso, ABRAPA criou em Brasília um escritório central que faz a checagem das análises feitas pelos laboratórios, confirmando ou não se estão fazendo um bom trabalho e verificação da qualidade, para garantir que o comprador estará recebendo aquilo que comprou, mostrando transparência e credibilidade ao produto. Nosso laboratório de LEM está em primeiro lugar no Brasil com 98,8% de conformidade com a análise realizada.

 

Em relação ao intercambio, já recebemos compradores aqui nas fazendas e fomos para Ásia onde vistamos vários país verificamos que eles valorizam muito qualidade e  credibilidade da informação, por isso, precisamos nos qualificar cada vez mais; Falando sobre o nosso algodão do Oeste, a qualidade vem de duas vertentes, uma conseguida através dos trabalhos e dedicação dos produtores, os cuidados e melhorais nos processos de produção, beneficiamento e armazenagem. A segunda é graças ao nosso clima que é ideal para cultivo de algodão.

 

 7. Falando em mercado internacional,  como estão as exportações? Tem um trabalho para divulgar o algodão baiano no exterior?

 

Júlio: Ainda não estamos divulgando o nosso algodão baiano, mas sim o Brasileiro, como estou vice presidente da ABRAPA, fui incumbido de fazer este marketing do algodão o exterior, principalmente na Ásia que representa 80% do nacional.

 

Para esta tarefa, estamos agora em fevereiro abrindo escritório com Apex, Itamarati e o Ministério da Agricultura, que através da Ministra Teresa Cristina nos deu maior apoio, com objetivo de que eles nos conheçam, pois, o Brasil a pouco mais de 20 anos erramos importadores de algodão e hoje somos o 2º maior exportador, queremos ser os primeiros do mundo, para isso vamos mostrar que temos quantidade, qualidade e confiabilidade, dar garantias de fornecimento e que as nossas amostras são cópia fiel do que entregamos.

 

Hoje estamos de igual para igual com outros países nesta briga pelo mercado mundial e vencendo esta faze, começaremos um  trabalho específico pelo nosso algodão baiano.

 

 8. Um critério bastante exigido é a questão da Sustentabilidade tem algum trabalho neste sentido?

 

Júlio: Em contraste com os lixões das cidades nós temos o recolhimento das embalagens de defensivos e organização das fazendas, onde após todas as embalagens utilizadas passarem por um processo de limpeza, são recolhidas pela ACIAGRI e depois de tratada volta a ser utilizada, não gerando resíduos nas fazendas.

 

Quanto à preservação do cerrado a Embrapa e a CAR fizeram um levantamento da região Oeste da Bahia e descobriram que os agricultores preservaram 35% das áreas, lembrando que a legislação obriga 20%, essa área preservada foi adquirida e paga pelos produtores, grande parte já averbada em cartório,isso representa mais de 2,7 milhões de hectares, estimasse um custo acima de 11 bilhões de reais. Deixando claro sempre, que as Associações não vão defender que estiver em desacordo com a lei.

 

Finalizando, queremos saber se outra classe da economia ou organização não governamental, fizeram algo nestes moldes, de abrir mão do seu capital em prol da preservação?

 

 09. A questão logística é algo que ainda prejudica o escoamento da produção. A gente vê que os produtores estão recuperando estradas. Como é feito este trabalho?

 

Júlio: Veja bem, a poucos dias tiveram um reunião em Iwoa nos EUA e um agricultor preocupado com a concorrência levantou e disse “Olha hoje eles (Brasil) tem a mesma tecnologia, área maior para cultivar e péssima logística, porém estão resolvendo, como isso vai ficar?”. Eles precisam mesmo se preocupar, veja que o cultivo na Europa é 60% do solo, EUA em torno de 26% e nós aqui são só 8%. Apesar de pouca área já somos grandes, isso explica o motivo das pressões dos países em relação ao meio ambiente no Brasil.

 

Percebemos já algumas mudanças para o futuro, melhorias nos portos, construção da Fiol para o escoamento, porém, de imediato temos problemas locais como os acessos as rodovias e manutenção das estradas vicinais. As diretorias anteriores criaram a patrulha mecanizada e em 2019 dobramos o tamanho dela, investimos mais de 30 milhões em equipamentos, que agora em união com os produtores, Prodeagro, fundo Instituto Brasileiro de Algodão e Aiba, estamos resolvendo juntos grande parte das dificuldade. Já foram mais de 2.500 km de estradas vicinais recuperadas, em algumas estradas refeito mais de 5 vezes, tivemos o cuidado de fazer todas com barraginhas e contenções, que não irão mais contribuir par o assoreamento dos rios. Contando com parcerias de produtores, associações, prefeitura e o governo do estado hoje estamos fazendo inclusive asfalto, asfaltamos mais de 100 km, resolvendo de forma definitiva o trafego nestas regiões, tanto para o produtor como para população que usa estas estradas.

 

Para os próximos dois anos teremos uma revolução, pois acabamos de aprovar no Instituto Brasileiro de Algodão, 16 milhões de reais para adquirir uma usina, nós vamos fazer o PSB, para asfaltar 300 km.

 

 

Quero aproveitar e Parabenizar os Produtores que tem sido fundamental para o projeto acontecer, pois, a Abapa vai lá estuda a possibilidade e eles se organizam e participam de forma ativa e decisiva para a execução do inicio ao final da obra.

 

 10. Outra ação importante é o Dia do Algodão, que já tem data marcada. Fale um pouco sobre o evento? Quando e onde será o evento? 

 

Júlio: Ano passado tivemos mais de 1.500 pessoas, já entrando para o calendário oficial da região, gerando emprego e renda. Na última edição reunimos além dos atores principais “os Produtores” levamos também Técnicos, compradores, trades, indústrias e instituições financeiras, juntamos em um dia toda cadeia do algodão. Com Objeto de discussão tivemos uma parte técnica nas estações onde são passadas informações importantes sobre as pragas, insetos e manejo, a parte comercial, de logística e visão de futuro, para que tudo isto sirva de orientação aos produtores e mostrar a direção vamos seguir na região oeste, assim como sudoeste da Bahia que está retomando o plantio de algodão.

 

Em nosso calendário acontecer dia 11 de Julho na fazenda SLC, perto do Rosário, com certeza será maior, melhor e com mais resultados.

 

 11. Este também foi um ano de muitos eventos para Abapa, como o Conhecendo o Agro, Prêmio Abapa de Jornalismo, e na área esportiva, como a Cotton Bike e a Corrida do Algodão. Como estes eventos contribuem para aproximar a  produção de algodão e o conhecimento do campo para a Cidade?

 

A Júlio:  Diretoria entendeu que precisamos trazer mais informação pra sociedade do que realmente está acontecendo no agronegócio, as pessoas precisam saber “Quem somos, Como pensamos e O que Fazemos”. Não como acontece hoje em que as informações distorcidas e inverdades estão proliferando como praga. Entendemos que a imprensa tem um papel fundamental para mudarmos isso, este prêmio de jornalismo é pra incentivar vocês da comunicação cada vez mais levar a verdade dos fatos para a população, e que ela com posse da informação faça seu julgamento. Queremos que o jornalista venha conhecer melhor sobre o assunto que vai escrever. Dividimos o prêmio em duas categorias profissional e estudante de jornalismo. Fiou evidente o que precisamos quando tivemos  uma experiência com 120 alunos formandos em jornalismo em um  auditório , onde na abertura fiz a pergunta de quantos conheciam os Oeste da Bahia? Apenas três levantaram a mão, então pedi e quem conhecia alguma das fazendas do Oeste? Apenas uma levantou a mão. Ficou claro que estávamos no caminho certo, pois no outro dia os levamos para conhecer uma fazenda, o laboratório de análise, uma indústria e uma beneficiadora de algodão, para que antes de vocês irem embora, eles conheçam realmente o que acontece na região, e também que no futuro, para as mesmas pergunta que eu fiz todos levantarem a mão, levando um aprendizado que tiveram de volta pra casa façam suas conclusões e montem suas matérias, hoje ele tem conhecimento real e é isso que nós queremos, com transparência e verdade.

 

Na área esportiva, a Cotton Bike e corrida do algodão demonstra pros participantes e população que as indústrias tem roupa de algodão, no intuito de aumentar o consumo e cada vez mais produzirmos algodão, mas, também queremos aproximar o Produtor da população.

 

Outro Projeto fantástico é o “Conhecendo o Agro”, começamos ano passado fazendo um teste em uma escola de Luís Eduardo e em Barreiras com apoio da Secretária de Educação, este projeto que consiste em passar para os professores e alunos a informação da tecnologia que tem avançado muito nos últimos anos e está sendo usada no campo. Os levamos para visitas as fazendas e às agroindústrias, com objetivo que comecem a entender a importância do agronegócio.

 

Estávamos enganados no passado achando que deveríamos ficar em nosso canto e acabamos descobrindo isso da pior maneira, sendo atacados de uma forma violenta, pela Europa e EUA, quer dizer que nós que usamos 8% do solo somos atacados por quem usa 60%, ficando claro que tudo tem o viés econômico e os pseudos heróis que se autopromovem com isso. Veja bem, é isso vamos combater com dados. Mapas, fatos e números essa é nossa arma de combate, a verdade. Não é um trabalho fácil, é demorado e precisamos do apoio da imprensa pra mostrar de forma clara, transparente e correta a real situação do agronegócio, isso é o que a Diretoria da ABAPA quer fazer.

 

  Fonte: Rádio Mundial FM 91,3 – Carlinhos Pierozan.

 

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